1Amor1Ciclo

A partir do momento em que o veneno toca a água cristalina de um córrego, como saber o quanto ele se diluiu? O quanto ele a contaminou?

Poderíamos reconhecer apenas com os nossos olhos? O olfato seria o bastante para sentir sem tocá-lo, capturar sem possuí-lo?

Poderíamos separar o fel de tudo que nos é valioso?

Que alternativa tenho eu, desprovido dos instrumentos adequados, senão provar a água e saltar no desconhecido com meus olhos vendados? Para que possa finalmente, sem sombra de dúvidas, aprovar ou descartar seu uso.

Me sujeitando a todos os riscos, tomei deste cálice. Mas alguns venenos são mais tardios em ferir que outros.

Precipitei-me ao celebrar tão cedo a sua inocência, sua pureza. Este fruto brotou quando menos esperávamos. Seu veneno caiu em meu sangue, e demorou para que eu o eliminasse.

Dizem que o que não te mata, te fortalece. Verdade. Mas também te caleja, obstrui tua sensibilidade, te deixa mais distante daquilo que suas mãos conseguem tocar.

Deixarei de beber dessa fonte? Claro que não. Voltarei todo dia para colher um pouco. Continuarei confiando naquilo que o destino me trouxer.

Pois amanhã não beberei da mesma água, a de ontem se foi, seguiu seu rumo. Só espero que tenha deixado seu veneno pelas margens, enquanto corre em direção ao mar. E que assim não contamine mais ninguém.

Amanhã voltarei, renovado, esperançoso. Quem sabe não encontro alguém no caminho? Quem sabe este estranho não me peça para dar-lhe de beber, e por fim acabe matando minha sede de uma vez por todas?

Luiz Felipe Queiroz

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